KARMA

O Preço do Livre Arbítrio

por Dr. Ramesh Bijlani

Cada ser colhe o que planta; do que faz se beneficia, pelo que faz sofre.

Sri Aurobindo (‘A Vida Divina’, p. 806)

“Todo o mundo é um palco, e todos os homens e mulheres são apenas atores”, escreveu Shakespeare. Com milhões de atores participando por milhões de anos, a complexidade da peça acontecendo no mundo está realmente além da imaginação humana, muito menos da compreensão. No entanto, videntes e místicos ao longo dos tempos foram capazes de nos dar um vislumbre do que se trata a peça e quais são as regras do jogo. Para cada indivíduo vivo hoje, o «Ato I – Cena I» começou há muito tempo, e a cena final será: «viveram felizes para sempre». Entre o começo e o fim, podem existir milhares de vidas. A peça em cada vida começa com um enredo pré-concebido, mas não há um roteiro pré-determinado. O desenrolar da peça está, pelo menos em parte, em nossas mãos. A parte que está em nossas mãos é conhecida como Karma. Karma consiste não apenas em nossas ações, mas também em nossos pensamentos e palavras. Cada alma acumula muito Karma positivo e negativo ao longo de milhares de vidas. Cada vez que a alma é consagrada em um complexo corpo-mente na terra, ela carrega uma fração do karma acumulado para ser esgotado durante esta vida. Esgotar o karma significa abrigar o tipo de pensamentos, palavras e ações que permitiriam que a alma evoluísse na direção certa. Isso não é exatamente o mesmo que neutralizar as más ações das vidas passadas na vida presente, seja por boas ações ou por sofrimento. O que isso significa é mais ou menos o seguinte. Existem dois extremos na evolução da alma humana – “nada evoluído” e “totalmente evoluído”. Geralmente nascemos em algum lugar entre esses dois extremos de um espectro muito amplo. O propósito da vida humana na Terra é dar alguns passos em direção ao fim «totalmente evoluído». O Karma positivo nos permite dar aqueles poucos passos na direção certa. Cada passo na direção certa esgota parte da bagagem do karma que trouxemos quando nascemos. A capacidade de esgotar toda a bagagem depende de quantos passos damos na direção certa. Podemos, no entanto, ir além do que simplesmente esgotar a bagagem do passado. Podemos, por meio do Karma positivo, ir além da promessa com a qual começamos esta vida. Alguns poucos indivíduos extraordinários são capazes de alcançar o extremo «totalmente evoluído» do espectro até o final da vida atual. Estes são indivíduos que talvez tenham feito muito progresso em suas vidas anteriores e precisam apenas de alguns retoques finais nesta vida. Uma vez que é humanamente impossível completar a jornada desde «nada evoluído’ até «totalmente evoluído» em uma vida, e completar a jornada é o destino de todo ser humano, o renascimento se torna uma necessidade racional.

Em contraste com o Karma positivo, o Karma negativo nos leva alguns passos em direção ao extremo “nada evoluído” do espectro. Assim, existe a possibilidade de terminar num nível inferior àquele em que nascemos. Isso é um desperdício terrível da oportunidade que temos como ser humano na Terra. Onde estamos no final da vida é o resultado líquido de nosso Karma positivo e negativo. A alma carrega a essência das experiências desta vida para sua morada de descanso e retorna à Terra novamente para uma evolução posterior. Ao retornar à terra, a alma pode escolher as circunstâncias, como o país, a família, etc., bem como as bênçãos únicas, como força física, inteligência, talento para a música, etc., que determinam o veículo que uma pessoa obtém para o crescimento espiritual na terra. A tendência é escolher as condições mais adequadas para uma maior evolução da alma.

É bastante comum falar em termos de bom karma levando a recompensas e mau karma levando a punição, sem entrar na polêmica ideia de renascimento. No entanto, a menos que o renascimento seja uma realidade, a simples relação entre karma e suas consequências nesta vida desafia muitas observações comuns. Como disse Sri Aurobindo, “… o significado e a necessidade do que acontece em uma vida particular não pode ser entendido exceto à luz de todo o curso de muitas vidas”. Por exemplo, o capítulo do meio de um longo romance pode não fazer sentido se não conhecermos os capítulos anteriores e os seguintes. Vejamos como acrescentar a complexidade do renascimento ajuda a explicar muitas aparentes discrepâncias. Por que uma criança morre? Não poderia ter cometido nenhum pecado para merecer a «punição». Uma explicação para tal evento é que a criança incorporou uma alma altamente evoluída que não teve que sofrer por muito tempo neste mundo. A breve aparição que faz no mundo é para ajudar no crescimento espiritual dos pais. O fato é que muitos pais que «sofreram» tamanha tragédia aproveitam involuntariamente a «oportunidade» proporcionada pela partida do «hóspede», e evoluem mais neste único evento do que em várias décadas de suas vidas normais. Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? Uma explicação é que as “coisas ruins” são suas oportunidades de crescimento espiritual. Nem sempre conseguimos o que queremos, mas conseguimos o que precisamos para o crescimento espiritual. Por que coisas boas acontecem com pessoas ruins? Coisas boas também podem ser oportunidades de crescimento espiritual. Riqueza, sucesso e fama levam ao crescimento espiritual se são usados para ajudar aos outros. Mas aqueles que não usam sua boa sorte dessa maneira podem não necessariamente enfrentar fracassos no mundo. Este aparente paradoxo pode acontecer provavelmente porque sua alma desistiu deles nesta vida e os deixa trabalhar para sua queda por excesso de sucesso mundano. Por terminarem em um nível espiritual muito inferior àquele com o qual começaram ao nascer, as almas dessas pessoas têm que começar tudo de novo em suas vidas subsequentes. Além disso, as condições que eles obtêm no período intermediário entre a morte e a próxima vida, e as circunstâncias de sua próxima vida, podem ser da variedade mais degradante. Assim, eles podem ter que pagar por seu karma ruim de três maneiras: 1. Pelo prolongamento de sua jornada espiritual em várias centenas de vidas; 2. Enfrentando a miséria em algum outro mundo após a morte; e 3. Obtendo em sua próxima vida a tristeza e o sofrimento como veículos para o crescimento espiritual.

Temos que postular o renascimento apenas para explicar as discrepâncias em «Cada ser colhe o que planta», ou existe alguma evidência para isso? Embora o renascimento seja impossível de provar, existem indícios suficientes para torná-lo plausível. Primeiro, alguns indivíduos têm lembranças de uma vida anterior e, quando foram feitas tentativas para verificar os detalhes, eles se mostraram consistentes com as memórias com muito mais frequência do que seria possível por mero acaso. Em segundo lugar, alguns indivíduos com habilidades psíquicas, como Edgar Cayce, e psiquiatras, como Brian Weiss, conseguiram descobrir detalhes bastante convincentes das vidas passadas de muitos indivíduos. Ian Stevenson documentou vinte casos sugestivos de renascimento.

Se uma pessoa não quer acreditar no renascimento, como isso importa? Não muito, se ele não se incomoda em ver os bons sofrerem e os maus aproveitarem a vida. O que é importante é que ninguém deve se tornar cínico ou mau por causa de tais discrepâncias. Felizmente, é possível permanecer no caminho certo descobrindo o segredo da verdadeira felicidade. Nenhuma conquista mundana garante a felicidade. Por outro lado, fazer a coisa certa traz paz mental duradoura, apesar do sofrimento que isso pode trazer. Essa é a razão pela qual as pessoas fazem coisas extraordinárias, até mesmo coisas aparentemente tolas, como Raj Kumar Mehta colocando as mãos em um carro em chamas para resgatar os passageiros[1]; Narayanan Krishnan deixando um emprego lucrativo para alimentar os sem-teto e destituídos[2]; ou Karl Rabedar doando riqueza acumulada ao longo da vida[3]. Bom karma não garante conforto ou sucesso mundano, mas com certeza traz paz, alegria e realização que superam o que geralmente é chamado de felicidade.

(Ensaios relacionados: Felicidade, Ser psíquico, Crescimento espiritual)

Traduzido ao Português por NB Traduções.


[1] Naji Sudarsan: Roadside inferno. ‘Reader’s Digest’ (Índia) maio de 2010, pp. 41-44.

[2] CNN escolhe chef indiano para o prêmio de ‘Herói do Ano’.

http://timesofindia.indiatimes.com/world/indians-abroad/articlesshow/6833917.c, 29 de outubro de 2010

[3] E. Jane Dickson: Nothing but joy. ‘Reader’s Digest’ (Índia) novembro de 2010, pp. 126-130.