BONDADE

Meu Deus! O Que é Bom?

por Ramesh Bijlani

Somos felizes porque somos bons ou somos bons porque somos felizes?

Victor Hugo, em “Os Miseráveis”

“O bem e o mal são relativos” é uma afirmação que está na moda, mas convida à pergunta: relativos a quê? Existe um bem absoluto em relação ao qual todo o chamado bem ou mal pode ser avaliado?  Antes de abordarmos essa questão, vamos fazer uma afirmação não tão moderna: o bem e o mal podem ser relativos, mas ainda assim relativamente bom é melhor do que relativamente mau. Que existem múltiplos planos a partir dos quais o bem e o mal podem ser julgados é óbvio pelas diferentes maneiras como essas palavras são usadas. Por exemplo, quando chamamos uma cadeira de “boa”, estamos nos referindo à sensação de conforto que sentimos quando nos sentamos nela. Quando chamamos uma pintura de “boa”, estamos nos referindo ao efeito esteticamente agradável da pintura. E, quando dizemos “as maçãs são boas”, estamos equiparando o bem ao efeito benéfico das maçãs na saúde. No entanto, nenhum destes usos da palavra “bom” tem uma conotação moral. Em todos estes exemplos, estamos avaliando um objeto ou ação em termos dos seus efeitos sobre um indivíduo. A conotação moral começa quando a avaliação vai além do indivíduo. Por exemplo, tal como as maçãs, o leite também pode ser bom para a saúde humana, mas quando os seres humanos tomam leite, o bezerro tem de ser privado da sua parte legítima do leite da sua mãe. Portanto, tomar leite levanta questões morais sobre o bem e o mal. Sempre que o bem de um indivíduo entra em conflito com o bem da coletividade, ou bem de alguns entra em conflito com os interesses de muitos, ou os interesses humanos entram em conflito com o bem-estar animal, somos obrigados a pensar em termos de ética e moralidade. Muitas destas actividades controversas só podem ser toleradas em termos de ética relativa, e não em termos de um código ético absoluto ou ideal. Na verdade, todos os códigos éticos são, até certo ponto, relativos, porque são produtos da mente humana. A mente humana não é apenas uma ferramenta defeituosa, mas também está condicionada por tantos factores ambientais que pode levar a conclusões altamente variáveis sobre o que é bom ou mau. A consciência individual é produto do senso estético, do trabalho intelectual e de um senso intuitivo do bem e do mal. Portanto, a consciência fornece uma orientação específica para cada situação mais confiável do que um código ético fixo. No entanto, mesmo a nossa consciência não é perfeitamente confiável para julgar o bem e o mal porque a sua origem é mista e alguns dos fatores que contribuem para a mistura carecem de consistência. A avaliação mental, que contribui significativamente à consciência, está condicionada pelo lugar, pelo tempo, pela cultura e pela «atmosfera». O guia mais confiável para o bem e o mal é o nosso Eu mais profundo, chamado de ser psíquico por Sri Aurobindo e a Mãe. Quando entramos em contato com nosso ser psíquico e não permitimos que o julgamento mental o ofusque, sabemos o que é consistente com o amor universal e incondicional. Somente as ações que passam neste teste são boas em termos absolutos.

Qual é a maneira mais prática para um indivíduo resolver esse emaranhado de bem e mal? De acordo com Sri Aurobindo, é bastante aceitável começar com um código de ética como guia e observá-lo fielmente. Mas qualquer código desse tipo deve ser tratado como um padrão temporário. À medida que o indivíduo evolui, ele começa a se sentir desconfortável com alguns aspectos do código que vem seguindo. Então chegou a hora de ele passar para um padrão temporário mais elevado. Por exemplo, um padrão de baixo nível pode permitir-me um certo luxo, desde que o adquira com o dinheiro que ganhei através de meios que sejam legal e moralmente aceitáveis. Mas, depois de algum tempo, posso começar a me sentir incomodado com esse luxo porque muitas pessoas ao meu redor não o têm. Agora, posso adotar um padrão ainda mais elevado e deliberadamente abrir mão do luxo, embora eu possa pagar por ele. Depois de algum tempo, posso começar a me sentir desconfortável até mesmo ao consumir as necessidades básicas, porque elas também estão além do alcance de muitos. Não importa que essas pessoas não estejam em meu entorno imediato; não posso vê-las, mas sei que existem. Agora, posso adotar um padrão ainda mais elevado e me expor deliberadamente a algumas dificuldades, além de tentar fazer alguma contribuição para as necessidades básicas de estranhos necessitados que não posso ver e talvez nunca verei. Esse processo permite um progresso espiritual gradual e também evita o apego fanático a um código ético rígido. Finalmente, o indivíduo pode chegar a um nível em que seu próprio guia interno é adequado para guiá-lo em direção a um bem absoluto. Nesse nível, a distinção entre o bem e o mal é abolida porque o indivíduo não é mais capaz de fazer nada ruim. Até que esse nível seja alcançado, existe uma fórmula simples para manter uma pessoa longe do mal? Uma das mais simples baseia-se no princípio de que tentamos esconder o que estamos fazendo se for a coisa errada a ser feita. Portanto, tentamos fazer isso quando «ninguém está olhando». Se nos lembrarmos de que, mesmo quando ninguém mais está olhando, Deus está, não faremos o que é errado. É por isso que Sri Aurobindo disse: «Comporte-se sempre como se a Mãe estivesse olhando para você, porque ela está, de fato, sempre presente».

Finalmente, por que uma pessoa deveria estar interessada em ser boa? O motivo é que fazemos parte de uma rede em que cada parte está conectada a todas as outras. Não é possível para um indivíduo ser verdadeiramente feliz a menos que os outros ao seu redor também sejam felizes, ou pelo menos que ele pense neles, sinta por eles e aja no interesse deles. É por isso que somos felizes porque somos bons, e não o contrário.

(Ensaios relacionados: Consciência, Ética, Mal, Felicidade, Amor, Moralidade, Ser Psíquico, Valores)

Postado como um blog no Speaking Tree em 3 de julho de 2015

Traduzido por NB Traduções.